domingo, 16 de maio de 2010

Perfil biográfico da poetisa e educadora Etelvina Amália de Siqueira*


José Wilson Moura Santos. Professor de História**
Ana Paula Rocha Barreto. Professora de Português***


A professora Freire define Etelvina “como cultura do verso e da prosa, oradora vibrante, educadora, conhecedora do idioma pátrio, abolicionista convicta e como tal amante da liberdade e da república...” (FREIRE, 1998, p.29) e Pina como uma “inteligência fulgurante, (...) foi poetisa, contista, jornalista, oradora e declamadora” (PINA, s/d, p. 193). A partir desses conceitos atribuídos a ilustre professora e poetisa traçaremos o seu perfil biográfico.
Nasceu em Itabaiana no ano de 1862, sendo filha de José Jorge de Siqueira e Rosa Maria de Siqueira. Em sua terra natal, teve os primeiros contatos com as letras e cursou o primário. Deixou seu chão na adolescência juntamente com sua família, dirigindo-se a Aracaju. Mas a vida na capital sergipana não a fez esquecer Itabaiana e a saudade sempre lhe batia o peito, levando-a sempre a relembrar sua meninice e, nostálgica, compôs o poema “Minha Terra” (SIQUEIRA, apud Pina, s/d, p. 201-03).

“Minha terra é uma criança
Sempre rizonha, não chora,
Encantada das belezas
Com que a natura a aflora.
(...)
A sombra dos adustos cajueiros,
Aspirando o perfume de seu seio,
Eu gozei dos anjos a harmonia,
As aventuras do céu, que doce enleio!
 (...)
Tem uma serra orgulhosa
Invejada no Brasil
Ribeirinhos cor de prata
 E um céu de puro anil.
(...)
Não tendo flores viçosas
Que te lance ao lindo colo,
Aceita, mãe a saudade
Que colhi em estranho solo.

Recebe a prova singela
Que te manda a filha ausente.
Repara: - vai orvalhada
De um pranto ainda quente”.
(Poema de Etelvina Amália de Siqueira, extraído da obra “A Mulher em Sergipe” da escritora Maria Lígia Madureira Pina, s/d, p. 201-03)

Em Aracaju, após aprovada em exames de seleção, ingressou na primeira turma da Escola Normal feminina do Asilo Nossa Senhora da Pureza, implantada em 1822. Nessa instituição de ensino, destacou-se pela sua inteligência e dedicação aos estudos, tornando-se um exemplo para as demais colegas de classe. Formou-se professora em 11 de novembro de 1884.
Segura, confiante e preparada para exercer o magistério, Etelvina após a formatura fundou o seu próprio colégio particular para o ensino primário e secundário de 1885 a 1890 (PINA, p. 193), ingressando para a vida profissional como docente. Em seguida, foi nomeada professora pública na Barra dos Coqueiros de onde foi removida em 31 de janeiro de 1891 para a aula elementar anexa a Escola Normal. No mesmo estabelecimento de ensino, em 1911, além da função de professora, exerceu o cargo de Auxiliar do diretor da Escola Normal e Anexo. Em 1912, passou a lecionar língua portuguesa nessa mesma instituição (GUARANÁ, 1925, p. 75).
A abalizada educadora foi uma voz dissonante e fervorosa contra a continuidade da escravidão no país. Em virtude disso, atuou sobre dois aspectos: discursivo e intelectivo. Enquanto aquele defendia o abolicionismo com pronunciamentos calorosos na “Cabana do Pai Tomaz” (1883), este abrandava a exclusão educacional sofrida pelos filhos libertos das escravas ao lecionar gratuitamente na casa do seu tio Francisco José Alves, onde funcionava a sociedade supra citada (SANTOS, 1997, p. 105).
A sua vocação intelectual e profissional não se estanca na educação, nem na luta abolicionista, pois vislumbramos sua importantíssima contribuição de cunho jornalístico por meio de discursos e artigos escritos em diversos jornais sergipanos (‘O Libertador’, ‘O Planeta’, ‘Gazeta de Sergipe’ e o ‘Estado de Sergipe’) e no jornal “A Discussão” do Rio Grande do Sul.
A distinta Etelvina também enveredou por caminhos da literatura com obras de alta qualidade (poemas e contos), legando-nos uma vasta produção espalhada por jornais do seu Estado e no Almanaque Sergipano.
Entre as temáticas abordadas em suas composições poéticas destacamos: o abolicionismo (“Ao Amigo do Escravo”; transcrito por Pina, s/d, p. 197-98); a educação ( “No levante da Pátria”, “Soa Além do Clarim” e “Surgem Auroras”, transcrito por Freire, 1988, p. 39) produzidos para o início das aulas; exaltação a personalidades como: Fausto Cardoso (“A Fausto Cardoso”e “No Terceiro Aniversário da Morte do Dr. Fausto Cardoso”, idem, 1988, p. 200) e Tobias Barreto (“Quadras a Tobias Barreto”, Idem, 1988, p. 200) e  a natureza (“O Pôr do Sol”, idem, 1988, p. 199).
Transcrevemos algumas estrofes dos poemas “Ao Amigo do Escravo e “Surgem Aurora” respectivamente:
(...)
Vós despertastes ao grito
Da infeliz escravidão;
Somos amigos, dissestes,
Dos míseros que não têm pão.
(...)
Remir no mundo os escravos
É curar de Cristo as chagas;
Marchai! Que o suor da luta
Vos doure a fronte em bagas.

Quando um dia o sol brasíleo
Surgir, mimoso de amor,
Aquecendo as faces frias
Do escravo ao seu calor.
(...)
(Poema transcrito da obra ‘A Mulher na História’ de Maria Lígia M. Pina, s/d, p. 197-98)

(...)
Abre-se a classe à luz das esperanças
Apartando de nós os vis terrores;
A escola é o róseo berço das crianças
Balouçada do amor nos resplendores;
O livro nos ensina com doçura
Nobres lições de fé e de heroísmo:
Doce aliança formam com ternura
Trabalho e estudo – e são patriotismo.
(Poema transcrito do artigo “Etelvina Amália de Siqueira: pioneira das intelectuais sergipanas” de Ofenísia Soares Freire, 1988, p. 39)

Quanto a sua escola literária, Freire filia a poetisa no movimento parnasiano porque “seus versos expressam uma linguagem sem pieguice, sem derramamentos sentimentais, procurando de maneira objetiva desenvolver o pensamento. O vocabulário é escolhido e a frase busca a perfeição” (FREIRE, 1998, p. 32).
Também Etelvina foi uma afamada oradora e dentre os grandes discursos, salientamos o proferido em razão da colocação do retrato no salão nobre da Escola Normal e Anexo do governo do estado Dr. José Rodrigues da Costa Dória e pela inauguração do edifício destinado à mesma instituição em 1911.
Em virtude de seus diversos atributos e valor no contexto social, político e intelectual para a sua época, Nunes a considerou “a pioneira das mulheres sergipanas nas atividades intelectuais” (NUNES, 2006, p.66). Portanto, não devemos sentenciá-la ao esquecimento sepulcral, visto que esse perfil biográfico abre-nos o leque para debruçarmos com mais acuidade sobre a Etelvina professora, poetisa, jornalista, abolicionista, republicana e/ou como “mulher ou mãe” (LIMA, 1998, p. 17)
Com toda certeza, a poetisa itabaianense foi um marco no rompimento da situação de submissão intelectual e de preconceito em relação à figura feminina na sociedade sergipana, a qual estava submetida aos caprichos do homem e aos afazeres domésticos. Segundo Thétis Nunes um dos motivos, provavelmente dessa mentalidade foi o temor do “homem que a mulher letrada escapasse ao seu mandonismo tradicional...” (NUNES, 1984, p. 47).
A pioneira serrana fez a diferença.  Lutou arduamente enquanto teve forças físicas e mentais em prol da educação e da literatura sergipana, além de ter sido um exemplo para as mulheres de seu tempo. Mas aos 18 de março de 1935, exaurida pelo tempo e o desgaste de tantas lutas, a admirável professora cessou a sua estada neste chão.

Referência Bibliográfica:

FREIRE, Ofenísia Soares. Etelvina Amália de Siqueira: Pioneira das Intelectuais Sergipanas. In: Cadernos de Cultura do Estudante. Aracaju: UFS, ano V, v. 5, 1998, p. 27- 4.
GUARANÁ, Armindo. Dicionário Biobibliográfico Sergipano. Rio de Janeiro: Estado de Sergipe, Empresa Gráfica Editora Paulo, Pongetti e C., Rio de Janeiro, 1925, p. 75.
LIMA, Laís Amaral Vieira. A Participação Feminina na Imprensa Abolicionista em Aracaju (1881-1885): Etelvina Amália de Siqueira. São Cristóvão, 1998. (monografia de conclusão de curso em licenciatura em História pela UFS), p. 15-28.
NUNES, Maria Thétis. História da Educação em Sergipe. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984, p. 47.
_____. Sergipe provincial II (1840/1889). Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Aracaju,SE: Banco do Estado de Sergipe, 2006, p. 62-63; 66.
PINA, Maria Lígia Madureira. A mulher na história. s/l.: s/e., s/d., p. 193-204.
SANTOS, Maria Nely. A Sociedade Libertadora: “Cabana do Pai Thomaz”, Francisco José Alves, uma História de vida e outras histórias. Aracaju: J. Andrade, 1997, p. 105.

Nota:
* Texto produzido entre março e maio de 2007
** Professor e pesquisador graduado em História pela Universidade Federal de Sergipe.
*** Professora e graduada em Letras pela Universidade Federal de Sergipe.

A etimologia da palavra Itabaiana*

     José Wilson Moura Santos**




A etimologia da palavra “Itabaiana” é de origem Tupi, como tantas outras que conhecemos por denominar rios, povoações, relevos e cidades do nosso Estado. Por isso, as suas explicações etimológicas acerca dos seus significados estão presentes em várias obras dos intelectuais sergipanos. Contudo, as explicações muitas vezes sobre determinadas palavras divergem-se, provocando muitas discussões, a respeito do seu verdadeiro étimo.
O étimo Itabaiana sempre trouxe inspirações poéticas, discussões que a envolvem em lendas, poesias que nos transportam a paisagens de outrora, que nos fazem sonhar e/ou imaginar como fora Itabaiana antes dos colonizadores, antes do sítio de Ayres da Rocha. Mas também, o seu significado não se encerra em mitos e poesias, temos os estudiosos sergipanos e serranos que conhecedores da língua tupi se enveredaram a caminho do seu significado. A fim de tratarmos acerca da etimologia de Itabaiana, mostraremos primeiramente os intelectuais que se enveredaram pela poesia e a lenda. E em seguida, os que tratam de expor a origem do nome da cidade à luz da língua tupi.
Inicialmente temos o Dr. Manoel P. Oliveira Telles que escreveu o poema “Itabayana” (TELLES, M. P. Oliveira. Itabayana. Instituto histórico e Geográfico de Sergipe, Aracaju, 1929, p. 85-99), em 1929, para exaltar a natureza serrana, contribuiu para o enriquecimento do folclore serrano ao declamar em versos a lenda que alude ao surgimento da serra que denominará a cidade. Devido a sua grande importância para a história itabaianense, transcrevemos versos do poema (respeitando a ortografia da época) que aludem a formação da serra e conseqüentemente a sua denominação e respectivamente a da cidade.

(...)
“E` que fica o planalto sorridente
De Itabaiana. Vem da serra o nome.”
(...)
“Era um indio...Nem sei que nome tinha,
Não cogita do nome a poetiza,
(...)
Era um índio, dizia, um potentado,
Terror das selvas todas, pois mandava
Sol e chuva naquelle antigo tempo
(...)
“Outro indio, não longe, dominava;
tambem soberbo e mau, mas alquebrado,
Já farto de viver, no fim da edade;
Não velho a caducar, porem já velho,
(...)
Mais feliz que o rival, tinha uma filha;
(...)
Fazia entontecer cada guerreiro.
(...)
O caboclo rival do velho chefe
Era indio potente, musculoso.
(...)
Na vil cabeça a intenção ardia
De exterminar o indio legendario.
Era Miaba a um tempo premio e causa
(...)
Pois a bella Miaba era insensivel
Aos protestos do indio apaixonado.
(...)
“Aproveitando o estribular dos grillos,
Typo de homem vem, quebrando ramas,
E de um só pulo se apresenta á virgem.

Quiz a moça fugir, era já tarde.
Só lhe restáva resistir á furia
Do cacique que ardia pelo goso.
Não de outra sorte a alimaria bruta,
(...)
Rosna, babando, sexual deleite.
A` femea accorre, lambe-a; retrocede
E avança de novo tiritante,
(...)
Continua a avançar ardendo em cio
(...)

Do impecto carnal apaixonado,
Teve medo, tremeu; tremeu convulsa;
Da propria fraqueza armando a força,
Para bem longe o repellio irada.
(...)
“Mas o selvagem não reflecte muito.
Demais era senhor do ermo e della,
Nessa hora feliz, cevando raivas,
Prazer e odio saciava á farta.
(...)
“Chora Miaba a ingratidão da sorte.
O riacho a rolar sobre pedrinhas
Imitava os soluços de Miaba.
(...)
Na taba de seu pae não mais foi vista.
(...)
Então dizem que déra á luz, ao cabo
De nove mezes de crueis tormentos,
Uma formosa explendida menina,
Que trouxe a sorte de viver nas fontes,
(...)
E` appellidada Poço da Mãe da Agua .

“Referem que Tupan na terra andando
Ouviu narrar o episodio triste
Da formosa Miaba, Incosolavel
Chorou Tupan de pena. Um Deus chorando,
(...)
“- Olha o justo castigo que mereces,
Orgulhoso cacique, que imprudente
A Tupan recusastes os dons da vida:

- Os raios de Tupan te firam na alma,
Immovel ficarás mudado em serra;
Para sempre serás – Itabayana
E quando as gerações passarem junto
Ao logar onde foi a tua choça,
Tranzidas de tristeza lacerante,
Apontarao para a alterosa serra,
Exclamando: Alli está Itabayana !...”

“Pouco depois as nuvens se inflammaram
E fulminante raio atravessara
O cacique a tremer. No mesmo instante
Solta um grito de dor; mas já sem forças
Rodou tres vezes, baqueiou no chão.
Contorce-se nas pedras moribundo;
De cada braço e perna ergueu-se em monte,
E a cordilheira surge de um só homem

“A ignea lingua lhe excavou no peito
Lethal cratera, que extravasa o sangue;
O qual; rumo do sul, seguindo em curva
Trajectoria, como um arco-irys,
Cahio mui longe, de outra serra ao pé
E a terra esopou; de onde mais tarde
Mananciaes e fontes se rasgaram.

“O sangue que esguichara da ferida
chamou-se Cotinguiba . Inda hoje corre...”

Com o mesmo propósito de mostrar o étimo Itabaiana, Vladimir Carvalho de Souza em “Santas Almas de Itabaiana Grande', 1973, trabalha a lenda para explicar o significado Itabaiana. Na sua exposição sucinta fala da lenda tratada anteriormente e apresenta uma outra lenda que justificaria o nome da cidade. Na obra, o autor expôs que “narra a tradição oral que existiu, em certa época, não focalizando-se o século, uma índia, de nome Ita e de naturalidade baiana, que, ao dançar a multidão eufórica exclamava:
“- Ita a baiana! Ita, a baiana!
E daí o termo Itabaiana.” (1973,22).
O dr. Armindo Guaraná em “Glossário Etimológico dos nomes de língua Tupi na geografia de Sergipe”, 1927, mostra que a etimologia de Itabaiana é a seguinte: “ITABAIANA – Serra. Cidade. Comarca. Itá – pedra; taba – aldeia; oane – alguém: naquella pedra mora alguém, há uma aldeia com gente ”. (1972,309).
O itabaianense Sebrão Sobrinho em “Fragmentos da História de Sergipe”, 1972, afirmou que Itabaiana tem “... dupla etimologia. No vernáculo – ITA, montanha; BAIANA, da Cidade. A única, translatamente: CIDADE ALTA; CIDADE DA MONTANHA. EM ABANHENGA (FALA DE GENTE, FALA DE HOMEM) ou em Nheèngatu (fala bonita, a língua Tupi: I, determinativo de lugar onde); ITA; montanha; TAB, aldeia, morada; ABAÜ (abay, abai)...; ANA (corrução de ANGA, alma. Literalmente: NAQUELA MONTANHA HABITAM AS ALMAS DOS HOMENS DO MAR, DOS NAUTAS.”(1972, 102, 103).
Ainda, temos o Padre Francisco da Silva Lobo em 1757 escreveu “Informações ou Noticias sobre a freguesia de Santo Antônio e Almas de Itabaiana”, tornado-se o seu primeiro cronista. Este a respeito da etimologia da cidade serrana disse que escrito em língua portuguesa significa pedra grande; na tupi ou vulgata: serra grande.
O Dr. Manoel P. Oliveira Telles e o serrano Vladimir Carvalho nos concedeu conhecermos duas lendas que tratam de um só tema: o significado da palavra Itabaiana que nomeia a nossa cidade. O primeiro dá-nos um grande presente que é este riquíssimo poema a nossa cidade, enaltecendo a nossa história, a nossa cultura, embelezando as nossas paisagens com este requinte indianista e naturalista. Além de contribuir para o enobrecimento do nosso folclore. O segundo é de igual importância para nós, por relatar sobre o tema estudado.
Em relação a Armindo Guaraná, Padre Francisco da Silva Lobo e Sebrão Sobrinho; estes se debruçaram na língua Tupi para explicar o significado da palavra Itabaiana . Contudo, Sebrão Sobrinho se sobressai na explicação etimológica, deixando claro no texto o seu total conhecimento da língua.
Enfim, fica óbvio a forte presença da língua Tupi na denominação da cidade e a sua etimologia. E não apenas nela, mas nos povoados serranos como antes demonstrado no artigo “A ETIMOLOGIA TUPI NAS DENOMINAÇÕES DE POVOADOS EM ITABAIANA”. Em virtude disto, devemos estudar com mais afinco a etimologia utilizada em nosso meio, já que sua presença se faz acentuada nas denominações dos vários povoados, logradouros adjacentes em nosso meio. E, em meio a isso, devemos preservar e valorizar a memória dos primeiros povoadores destas paragens. Enfim, fica-nos a etimologia mais aceita do nome da nossa cidade nos legada pelo nosso conterrâneo Sebrão Sobrinho: “ Naquela montanha habitam as almas dos homens do mar, dos nautas”.
Nota:
* Texto produzido entre julho e agosto de 2005
* * Professor e pesquisador graduado em História pela Universidade Federal de Sergipe.

A ETIMOLOGIA TUPI NAS DENOMINAÇÕES DE POVOADOS EM ITABAIANA*

José Wilson Moura Santos**

Os primeiros habitantes de Sergipe como de todo o Brasil foram os índios que nos legaram muito de sua cultura. A sua presença em nosso cotidiano é marcante. Pois, se faz presente na música, na arte, na alimentação, na culinária, nas técnicas agrícolas e entre outros no nosso vocabulário, isto é, no nome do nosso Estado, na denominação de muitas cidades e seus respectivos povoados.
A fim de ilustrarmos a sua marcante presença em nosso meio, citaremos a cada semana diferentes nomes de povoados de denominação Tupi e os seus respectivos significados etimológicos que estão a seguir:
Bom Jardim
A esse povoado o íncola deveria tê-lo chamado de Üacatu , isto é, üa (roça, sitio, malhada) e catu (bom, boa), que seria Bom Sítio, ou Boa Malhada, ou ainda Boa Roça; a qual locução fora trazido metaforicamente pelo português para Bom Jardim. (SEBRÃO, Sobrinho, Fragmentos de Histórias Municipais e outras Histórias. Vladimir Souza Carvalho(org). Aracaju, Instituto Luciano Barreto Júnior, 2003 , 263).
Cajaíba
Vem do Tupi Acayá – yba – árvore: árvore do cajá, cajazeira. (GUARANÁ, Glossário Etymologico dos nomes da língua Tupi na Geografia do Estado de Sergipe. Aracaju, Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, vol. VIII, n° 13,1929,301)
Caraíbas
Vem do Tupi Caray – forte, valente. Nome que os Tupi davam aos brancos(Idem, 1929,303). Contudo, segundo Sebrão Sobrinho o “seu nome íncola, tupi, era Caraübaêté , aportuguesado em Caraíbas, isto é, no plural de Caraíba, pois que êtá , como guê , é sufixo plural, sinônimo de nosso s . Sabendo-se disso, resta, para estudo, o vocábulo Caraíba.”(2003, 271-272). Ainda no mesmo texto, Sebrão afirmou que na língua indígena dos povos da América do Sul existia o “vocábulo composto caraüba , formador dos elementos caraü e ba . O radical caraü , em qualquer língua sul-americana, entre essas, já se vê, o tupi..., a significação de santo, entendido, hábil, superior, sábio, astuto, esperto, atributos que o natural dava aos deuses e, quando o emprestava a um simples mortal, o fazia juntar aos sufixo ba , isto é, aférese de aba , homem, gente.”(Ibid., 272).
Congo
Vem do Tupi Cong – particípio passado do verbo engolir. (GUARANÁ, 1929, 304)
Gandú ( ou Guandu)
Originário do Tupi Coandú ou Quandú – que é pequeno mamífero da família dos roedores(Idem, 1929, 307). Todavia, Sebrão Sobrinho discordou totalmente de Armindo Guaraná e de Batista Caitano de Almeida Nogueira que em 1879 afirmou que a palavra era de língua guarani aportuguesado. Em sua explanação, explicou que o nome Gandu veio do tupi “ candua ou candu , do qual se originou..., candua ou candu tem o étimo claro: caa (mato) e uâ (caule, grelo, talo, etc.), isto é, mato de ervas, ralo!... Ainda ele propõe, uma outra significação para Gandu: ‘ caa (mato) e u (o ü que o luso atolado transformou em y ) ( rio), isto é, caaú , eufonicamente candu ou gandu : rio do mato.” (2003, 260-261).
Lagoa do Forno
Povoado cujo nome deriva de uma lenda diabólica. Devido a isso, esta região foi batizada pelo indígena de Mbucarãe , nome da bela índia casada com o “desditoso príncipe Panema” que num ato de loucura foi induzido pelos atos maléficos de Abaçaü ( Abaçai ) e assassinou Mbucarãe. Quando tomou consciência de si, Panema derramou tantas lágrimas de arrependimento que o local tornou-se uma lagoa que recebeu o nome de sua ex-esposa. Contudo, os portugueses denominaram esta região de Lagoa Bossoranha, depois de Lagoa do Forno. Segundo Sebrão Sobrinho foi traduzido pelo conquistador luso para Bossaranha, e, após, para Lagoa do Forno (2003, 257,258).
Mangabeira
Vem do Tupi Mongaba – coisa pegasoja. A palavra mongaba recebeu o sufixo eira do português, que denominaria a árvore da mangaba, a mangabeira. (GUARANÁ, 1929, 313).
Matapoã
Deriva do nome original Tupi é Matiapoan . Matü (coisa insignificante) e apoã (arredondada), correspondente a coisa arredondada insignificante (Idem, 1929, 314)
Mundés ( mais conhecido por Rio das Pedras ou Padaria)
Vem do Tupi é Monde. Mô-ndé (cobrir, fazer cobrir, o alçapão, a armadilha), segundo Armindo Guaraná (1929, 314). Sebrão Sobrinho ao se referi a Lagoa do Forno e a lenda voltava-se a Mundés, local populoso e imenso, mas também, local em que ocorreu o assassinato da índia Mbuçarãe pelo seu esposo Panema. Por isso, “ao local do crime, foi dado o nome de Mondé (tocaia)”. (2003, 257, 258).
Murici
Vem do Tupi Mô-rici – o que da resina, planta de diversas espécies, do gênero Byrsonima, malpighiácea, arvore e arbustos que produzem um tipo de fruto drupáceo, do mesmo nome, de polpa edula, fruto da muriazeira do qual se faz uma bebida apreciada no Norte do país. (GUARANÁ, 1929, 315).
Ribeira
Vem do Tupi Ismirim – Is (üs) rio e mirim : pequeno; portanto, rio pequeno ou ribeira. E em relação a serra da Ribeira, temos em tupi Camocimitá : camocim (ribeira) e tta (serra, pedra): Serra da Ribeira (SEBRÃO, 2003, 256).
Sambaiba
Vem Tupi, Çaimbe (áspero); yba (árvore), correspondendo a árvore de folhas ásperas, o pau de lixa.(GUARANÁ, 2003, 320). Sebrão Sobrinho expõe que Sambaiba vem do nome íncola Çambambaia , ou seja, planície ondulada, pois se origina de camba (corda) e mbaia (enrolada). (2003, 265).
Serra
Vem do Tupi Ita : serra. Porém, antes da sua simplificação pela língua portuguesa, os índios a apelidava-na de Itaendabaçu ou Sítio Grande, que decompõe-se em Ita (serra) e endaba (lugar, povoado, sitio, pouso, estância em que está a coisa, determinativo local); Açu (grande). (SEBRÃO, 2003, 262)
Taboca
Procede do Tupi: Ta (haste); boc ou bog (furada, oca) . Portanto, haste furada ou haste oca. (GUARANÁ, 1929, 321)
Tapera
Vem do Tupi Tap – forma contracta de Taba (aldeia), oéra (velha, arruinada), ou seja, aldeia velha ou aldeia arruinada.(Idem, 1929, 322).

Taperinha
Do Tupi Tap (taba – aldeia), oéra (velha arruinada), acrescida do sufixo diminutivo inha do português que significaria pequena aldeia arruinada ou pequena aldeia velha. (Ibid., 322).
Tiririca
Provem do verbo Tupi Tiriri – cortar, ferir. Planta ciperácea (Idem, 1929, 324).
Terra Vermelha
Vem da origem Tupi Tabüpiranga , que é uma contração de taba-übü-pirang . Nome íncola da taba Terra Vermelha. (SEBRÃO, 2003, 293).
Zanguê
Procede do Tupi Çam por cama (corda); guê – sufixo plural: as cordas (GUARANÁ, 1929, 326). Sebrão Sobrinho acrescenta ainda que cama (corda) e guê (recíproco de nosso s , como sinal de pluralidade), isto é, as cordas. (SEBRÃO, 2003, 265).

Entre os povoados que constituem a área rural de Itabaiana, citamos aqueles que encontramos como originários do Tupi entre os demais povoados serranos. É claro que o trabalho não se encerra nesta pequena explanação etimológica, pois muito se tem a conhecer sobre a língua Tupi e suas influências em nosso cotidiano.

NOTA
* Texto escrito entre março e abril de 2005
* * Graduado em História pela Universidade Federal de Sergipe.